Mensagens

uma vida tranquila

   precisamos de uma sala cheia de livros não porque o mundo seja menos mundo mas porque há tardes que sabem mais do que                       cidades inteiras                          e uma página (virada devagar) faz um ruído maior            do que o virar dos séculos

a espera

estou sempre(à espera)de algo que aconteça -buraco em forma-de-mim na tarde e nada o preenche nada (quando algo deveria acontecer não acontece) ninguém chega nin guém parte (a porta é uma boca que se abre tanto como esquece) nada acontece o que é dizer: o relógio mantém o seu pequeno teimoso tique(tique)taque~ mentiroso as paredes continuam sendo paredes eu continuo sendo esta máquina-de-esperar que espera (não será isso também uma espécie de acontecer - o imendo ruído do nada, pressionado contra as minhas costelas como um pássaro que nunca decidiu ser pássaro) nin guém nin       guém nada: ainda estou aqui, o que é(talvez)a única coisa que alguma vez verdadeiramente              me aconteceu

a fome

If you pick up a starving dog and make him prosperous, he will not bite you. This is the principal difference between a dog and a man . Mark Twain deram ao cão um pedaço de carne depois deram-lhe uma casota                         um nome um lugar junto ao fogo o cão aprendeu  o silêncio         das coisas       sem compromisso - dormia à beira da porta como quem               vigia o mundo para que         ninguém roubasse     o pouco que era seu  o homem recebeu casa         chaves              espelhos   mesa comprida onde a fome       não cabia (mas a fome    quando desaparece   do estômago sobe  à cabeça) e o homem começou  a contar:     ...

a melhor obra

 Para Arthur Miller a melhor obra                  não é a que repousa  sob a luz tranquila de elogios nem a que atravessa o tempo sem levantar poeira - é a que observa          do outro lado da página  com os olhos de quem sabe o que falhámos dizer  a que chama pelo nome      antes de ser pensado escrevê-la é  aproximar a mão do fogo    aceitar a medida exacta da escala do nosso medo e quando terminamos        sentimos silêncio e nele a obra permanece - viva -             incómoda - terrível   como a criança              à espera de nos          embaraçar

Chuva

Há quem escute                            a chuva na alma, como quem ouve um tambor distante Cada gota é um nome, cada som um sussurro antigo                 Há quem caminhe à chuva e sinta o corpo lavar-se,                   a pele responde ao toque, o sentido aprende o ritmo                           um cântico sem letra E há quem apenas se molhe,                                        apresse o passo nas ruas,                                            feche o casaco ao vento,                        ...

fios invisíveis

 o mundo encolheu num écrã de vidro, distâncias que eram meses, são agora segundos,        um clique em Lisboa, uma fábrica em Xangai, o mesmo café servido em mil línguas   roupa confeccionada por mãos que não vemos             viajam oceanos até tocar a pele, o dinheiro voa sem fronteira e asas enquanto culturas se cruzam e perdem   uma canção nasce numa aldeia esquecida no dia seguinte toca em Nova Iorque,           há quem pergunte entre écrã e luzes se ao ganhar o mundo perdemos                      o lugar onde nos sentávamos somos todos vizinhos,                 somos todos estranhos,      ligados por cabos separados por muros, o planeta é uma casa de portas abertas      e nem todos entram pelo mesmo preço e assim seguimos, te...

globalização

a globalização                      fez do mundo uma só matéria o mundo             cabe num fósforo acende-se a chama não conhece                    fronteiras basta     um único fósforo      para incendiá-lo inteiro 

O Aplauso

Uma civilização começa a morrer quando aprende a aplaudir antes de aprender a escutar. Primeiro vêm as bandeiras, os rostos ampliados nos ecrãs, as mãos de palmas erguidas como se a esperança pudesse ser medida em decibéis. Depois vêm os discursos. Prometem estradas, ordem,             futuro, um destino cuidadosamente  untado para caber no teatro. E a multidão responde. Aplaudem. Aplaudem até as palavras perderem o significado e sobrar apenas o silêncio, o eco e a sombra das mãos. Enquanto isso, num quarto mínimo, um poeta escreve. Não tem escolta. Não tem microfone. Não inaugura estátuas. Tem uma janela e a cidade do outro lado. Vê um homem que regressa tarde, uma mulher que conta as moedas, uma criança que desenha uma casa sem saber que já nasceu hipotecada. Vê os velhos nos jardins sentados a dormir em bancos como páginas esquecidas. E escreve. Escreve porque há coisas que um discurso não pode esconder: a fome dentro do...