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univers revers 2.0

A artroplastia reversa tem algo profundamente simbólico. Quando a mecânica antiga falha, a re-invenção do corpo cria uma nova fórmula.  Há nisso uma espécie de dignidade silenciosa:  prótese, ossos, inversão, re-aprendizagem do gesto: uma revolução anatómica. Quase uma outra vida. No ombro, a prótese implantada trocou       o lugar da antiga fórmula. O corpo, confuso,       aprendeu outra geometria. Agora o braço sobe até ao céu não pela memória,   mas por um pacto metálico. Dentro do osso, um pequeno planeta inverso gira sem infância. E mesmo assim, ergue o pão,  abre a janela,   segura a chuva.

univers revers

Para quem aceitou que o corpo fosse reescrito, que confiou o gesto à ciência e a dor ao tempo. Que este poema seja um curativo invisível: memória do que foi atravessado, celebração do movimento que regressa, e sinal de que, mesmo quando o mundo se inverte, há sempre um braço possível para acenar ao futuro. No lugar do corpo, onde o gesto             aprende a cair, a levantar--se do  chão, surge um silêncio branco            univers revers - nome cirúrgico de constelação, um mapa virado             do avesso - a mão a tocar o céu        A lâmina não fere: escuta. Afasta    a dor como quem corre a cortina: luz fria, precisa, quase imaterial Cada osso é um planeta antigo,        cansado de rodar fora do eixo     O cirurgião reaprende a gravidade,  inverte o mundo, e das mãos certas   desse relojoeiro o ponteiro r...

Refrão

Para Hilda Hilst Peça curta para vozes em alerta (com refrão) CORO (à frente do palco, luz crua): Homens do nosso tempo, escutai sem almofadas. O palco é nu. A verdade assim o diz. NARRADOR (lendo um relatório, interrompe): Chamais progresso ao ruído das máquinas. Mas a pergunta escapa, fica presa entre os vossos de dentes . ACTOR 1 (operário, mãos sujas de óleo): Trabalhei todo o dia para viver outro dia. Chamaram-lhe eficiência. Chamaram-lhe o percurso dos dias. E a palavra justiça rangia entre os vossos de dentes . ACTOR 2 (funcionário, fato cinzento): Assinei papéis que não li. Li títulos de imprensa em que não pensei. Pensei pouco, porque pensar atrasa a hora. O pensamento travava entre os vossos de dentes . CORO (em passo marcial, depois parado): Não cantamos para distrair. Cantamos para mostrar o fio solto. Cantamos porque o silêncio é um luxo caro, sempre pago - entre os vossos de dentes . ACTRIZ (personagem indefinida): Não falo de amor...

correspondências

Entre o real e o oculto,                 há uma porta sem nome - cada verso, uma chave,        cada símbolo, uma casa,         ecos de um mundo que    se afasta mal se aproxima, véu que se abre                               para mostrar o assombramento de outro véu.               E, assim, se escreve como se escrever fosse abrir portas - como quem pudesse atravessá-las.  

as casas

Para Aldo u s Huxley como sabeis que a terra não é o inferno (de outro planeta) talvez já estejamos no fundo sem o saber e as chamas que esperávamos sejam esta luz                   mansa de estação indefinida talvez os condenados sejamos               nós & ninguém nos disse que o castigo pode ter o rosto       do hábito - o pão de cada dia          o ruído dos carros  ao amanhecer o amor que se gasta  como uma                  vela        numa casa vazia se isto é o inferno então o inferno é                     belo tem árvores                     rios crianças a rir mãos que se procuram a solução           na penumbra & isso é...

outro cigarro

Find what you love and let it kill you. Charles Bukowski  encontra o que amas e deixa que te mate . fácil dizer isso quando se está sóbrio. difícil é fazê-lo às cinco da manhã com a garrafa meio vazia e o telefone que não toca. já amei coisas que me arrancavam os dentes. amei mulheres que me diziam: "és um merda!" e eu agradecia. já amei a garrafa quando ela era a única que ficava. e sabes? valeu a pena. não pelo prazer - isso é para os românticos. valeu pela ferida. porque a ferida ensina. o resto esquece. então procura. procura essa coisa que te vai partir ao meio. podes chorar no balcão. podes vomitar no lavatório. podes acordar sozinho com o sol a rir-te na cara. tudo bem.                   tudo bem. porque os que nunca amaram  nunca escreveram nada que alguém quisesse ler às cinco da manhã. encontra o que amas e deixa que te mate . depois acende outro cigarro. o mundo não esper...

a tolerância

a tolerância (torna-se um crime)quando aplicada ao mal - diz thomas mann e o silêncio concorda sem concordar;pois há verdades)(que se dobram e há verdades que não - olha: uma mão que hesita é uma mão que já escolheu (o mal cresce onde a bondade esquece de ter dentes) & assim digo:não toleres o que devora o pequeno e o quieto pois o amor sabe quando dizer não  

toda a palavra

Toda a palavra é uma pedra lançada ao rio. Antes do círculo que desenha na água, há uma margem de onde partiu. Nenhuma palavra nasce do vazio. Traz pó dos caminhos, o sal das lágrimas, o fogo das inquietações. E quando se desprende dos lábios, já não pertence a quem a disse. É ave migratória. Procura outros céus, outros ombros, outros destinos. Toda a palavra tem uma causa e uma consequência. É semente lançada à terra escura. Nunca sabemos se dela nascerá um jardim ou uma floresta de espinhos. Mas também o silêncio não é ausência. O silêncio é um mar subterrâneo. Corre por baixo de conversas, escava grutas na alma, arrasta correntes invisíveis. Todo o silêncio tem uma causa. Uma lua encoberta. Uma porta fechada por dentro. Um pássaro que perdeu o caminho do canto. E toda a consequência do silêncio é um eco sem voz. Às vezes ponte. Às vezes abismo. Às vezes escudo. Às vezes ferida. Vivemos entre essas duas marés: a das palavras - barc...