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os amantes

É na penumbra do quarto que a noite desafia o seu segredo. Longe da cidade e do rumor das vozes, os corpos acendem-se como dois arquipélagos de febre, fabricados de sal, silêncio e vertigem. Vê como as mãos inventam a arquitectura do escuro, a pele da cobra vibra antes de ser tocada. Há uma urgência subterrânea em devorar as horas, enquanto as ruas morrem na humidade dos vidros. Amar é este ofício terrestre de esculpir a luz na carne, a âncora vagarosa de barcos nocturnos junto à praia breve e sonora da boca. Tu, que conheces a gravidade exacta da respiração do outro, sabes que nada permanece senão o rasto de suor sobre os lençóis, essa memória densa de água, cinzas e desejo. Deixa-te ir ir no vórtice da madrugada, fundido na mesma sombra que te oculta o dia. Que a noite te seja um manto de sal e vertigem, e ao amanhecer, quando a primeira luz rasgar o quarto, respira o peso exacto da espiral que cativa os lábios.

sanidade

  Sanity is a cozy lie . Susan Sontag sanidade - um cobertor sobre o abismo durmo o abismo não

Verme

    Fizeste-te pequeno  para caber no medo. Agora não estranhes o pé que te encontra. O chão não conhece outra linguagem. 

a porta

quando abro                      um livro abro         uma                  nova porta (ninguém vê)      a página              não é página    é dobradiça o silêncio    que se abre   e dentro  há uma rua   que nunca existiu uma janela     que desconheço & eu  entrando em mim   pela primeira vez 

confissão

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade. Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares, Vol. I, ed. 1982. Compreender é uma forma de possuir. E não quero pertencer nem sequer à inteligência de alguém. Ser compreendido é prostituir-se . É pôr a alma sobre a mesa e esperar que alguém diga: Ah! Conheço isto. (Não conhece). Ninguém conhece ninguém. Nem eu conheço o homem que sou quando estou sozinho. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou . (Há nisso uma pureza). Que me julguem triste quando sou apenas cansado. Que me julguem sábio quando não passo de vazio. Que me julguem indiferente enquanto estou a sofrer. (Que errem). O erro dos outros é às vezes a única liberdade que nos deixam. Não quero a compreensão humana. Quero a sua decência. Que me ignorem naturalmente, sem ódio, sem curiosidade, sem aquela ...

limiar

  se atingires o limiar do sonho saberás que esse é o ponto de r e g r e s s o a noite t e chama pelo/ ferro  pela/ pedra  pelo/ nome onde os relógios (des) a  p  a  r  e  c  e  m e o corpo se d e s f a z em névoa caminhas em silêncio até ao topo na      vertigem do do       último                      degrau (vê) o silêncio te devolve  a      p      e      l      e (desperta) reconhece o limiar não pelo b r i l h o mas pela certeza (súbita) de que os nomes já não pesam e as horas perdem                                     a urgência das marés

o dia

o     dia           cai dentro  de mim não é luz é abertura uma coisa   pequena insiste in siste na ferida e eu         vi              vo não         inteiro mas          ainda  

cicatrizes

  To be alive at all is to have scars. John Steinbeck estar         vivo é isto: uma pele que         não  esquece a queda (o sangue    uma forma      de memória)       e depois o corpo insiste (abre os olhos     abre a ferida) abre o dia

continuar

continuar simplesmente continuar ninguém pede  uma alma antes de a dar pedes-me um poema  e por um instante  és tu quem continua  através de mim - a tua vontade de dizer  sobrevive-me na mão  a minha falta de sono  que sempre me falta o meu cansaço  que não é meu talvez seja assim  que continue como alguém que ainda se deixa simplesmente  continuar