O Aplauso
Uma civilização começa a morrer quando aprende a aplaudir antes de aprender a escutar. Primeiro vêm as bandeiras, os rostos ampliados nos ecrãs, as mãos de palmas erguidas como se a esperança pudesse ser medida em decibéis. Depois vêm os discursos. Prometem estradas, ordem, futuro, um destino cuidadosamente untado para caber no teatro. E a multidão responde. Aplaudem. Aplaudem até as palavras perderem o significado e sobrar apenas o silêncio como sombra das mãos. Enquanto isso, num quarto mínimo, um poeta escreve. Não tem escolta. Não tem microfone. Não inaugura estátuas. Tem uma janela e a cidade do outro lado. Vê um homem que regressa tarde, uma mulher que conta as moedas, uma criança que desenha uma casa sem saber que já nasceu hipotecada. Vê os velhos nos jardins sentados a dormir em bancos como páginas esquecidas. E escreve. Escreve porque há coisas que um discurso não pode esconder: a fome dentro do silên...