inocências

I realized either I was crazy or the world was crazy; and I picked on the world. And of course I was right.
Jack Kerouac




Houve um dia
em que me sentei diante do mundo
como diante de um espelho.

Perguntei-me:

sou louco
por desconfiar de homens
que sorriem enquanto engordam
os parafusos da máquina?

sou louco
por achar estranho

que tanta gente caminhe 
sem saber como e onde
e ainda assim se orgulhe
de exibir no pulso
o cronómetro de corrida?

Por momentos
quase aceitei a sentença.

Talvez fosse eu.

Talvez houvesse qualquer coisa mal desenhada
na arquitectura secreta da minha cabeça,
uma janela aberta para o lado errado,
um rádio sintonizado
numa estação que ninguém escutava.

Então olhei melhor.

Vi homens
a fabricar guerras em salas de limpeza.

Vi crianças aprenderem
o preço das coisas
antes de aprenderem
o nome das árvores.

Vi o medo vestido de lei,
a amizade vendida em prestações,
a liberdade substituída na rua
por cartazes com letras rachadas.

Vi as gentes dizendo:
- É isso mesmo...!
com a doce serenidade
de quem acaba de mentir.

E entendi:

não era a minha cabeça
que estava fora do sítio.

Era o mundo
que tinha aprendido
a chamar normalidade
à própria engrenagem.

Então escolhi.

Não porque estivesse certo,
mas porque alguma coisa em mim
ainda sabia diferenciar 
uma ferida de uma cicatriz.

Escolhi o mundo como louco.
Foi uma escolha perigosa.

Mas havia nela
uma certa forma de sanidade:

aceitar que a loucura fosse real
quando praticada como um jogo
para a soma exorbitante de biliões.

E desde então,
caminho entre os homens
com essa quase certeza:

talvez não seja louco.

E isso, por alguma razão,
acredito ser a única coisa
loucamente irrecusável.

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