o abismo
Não procures no livro a receita para o domingo, nem a frase que promete um homem novo na última página. Desconfia do autor que conhece o caminho e o imprime em papel branco, com passos numerados para sair de si mesmo. A felicidade, quando vem com instruções, parece uma mercadoria dentro da embalagem. A filosofia não te salva. Abre a janela que mostra o vizinho que fuma, a criança que cresce - o equívoco do mundo. Mostra a cidade mastigando os seus mortos, correndo atrás do salário, carregando o peso invisível das horas, tão ocupados em melhorar, que não sabem para quê. Não há dez passos. Não há sete hábitos. Não há uma manhã perfeita à espera do seu espectador. Há uma cadeira vazia, um corpo que envelhece e essa coisa obscura, quase doméstica, que se senta à mesa. Aí começa o pensamento. Quando perdemos a vontade de fingir que a questão é simples. A filosofia não deve afirmar: Eis como viver. Deve apontar para o chão e dizer: olha - É aqui que estás. Nesse pequeno...