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A mostrar mensagens de setembro 6, 2026

uma vida tranquila

   precisamos de uma sala cheia de livros não porque o mundo seja menos mundo mas porque há tardes que sabem mais do que                       cidades inteiras                          e uma página (virada devagar) faz um ruído maior            do que o virar dos séculos

a espera

estou sempre(à espera)de algo que aconteça -buraco em forma-de-mim na tarde e nada o preenche nada (quando algo deveria acontecer não acontece) ninguém chega nin guém parte (a porta é uma boca que se abre tanto como esquece) nada acontece o que é dizer: o relógio mantém o seu pequeno teimoso tique(tique)taque~ mentiroso as paredes continuam sendo paredes eu continuo sendo esta máquina-de-esperar que espera (não será isso também uma espécie de acontecer - o imendo ruído do nada, pressionado contra as minhas costelas como um pássaro que nunca decidiu ser pássaro) nin guém nin       guém nada: ainda estou aqui, o que é(talvez)a única coisa que alguma vez verdadeiramente              me aconteceu

a fome

If you pick up a starving dog and make him prosperous, he will not bite you. This is the principal difference between a dog and a man . Mark Twain deram ao cão um pedaço de carne depois deram-lhe uma casota                         um nome um lugar junto ao fogo o cão aprendeu  o silêncio         das coisas       sem compromisso - dormia à beira da porta como quem               vigia o mundo para que         ninguém roubasse     o pouco que era seu  o homem recebeu casa         chaves              espelhos   mesa comprida onde a fome       não cabia (mas a fome    quando desaparece   do estômago sobe  à cabeça) e o homem começou  a contar:     ...

a melhor obra

 Para Arthur Miller a melhor obra                  não é a que repousa  sob a luz tranquila de elogios nem a que atravessa o tempo sem levantar poeira - é a que observa          do outro lado da página  com os olhos de quem sabe o que falhámos dizer  a que chama pelo nome      antes de ser pensado escrevê-la é  aproximar a mão do fogo    aceitar a medida exacta da escala do nosso medo e quando terminamos        sentimos silêncio e nele a obra permanece - viva -             incómoda - terrível   como a criança              à espera de nos          embaraçar

Chuva

Há quem escute                            a chuva na alma, como quem ouve um tambor distante Cada gota é um nome, cada som um sussurro antigo                 Há quem caminhe à chuva e sinta o corpo lavar-se,                   a pele responde ao toque, o sentido aprende o ritmo                           um cântico sem letra E há quem apenas se molhe,                                        apresse o passo nas ruas,                                            feche o casaco ao vento,                        ...

fios invisíveis

 o mundo encolheu num écrã de vidro, distâncias que eram meses, são agora segundos,        um clique em Lisboa, uma fábrica em Xangai, o mesmo café servido em mil línguas   roupa confeccionada por mãos que não vemos             viajam oceanos até tocar a pele, o dinheiro voa sem fronteira e asas enquanto culturas se cruzam e perdem   uma canção nasce numa aldeia esquecida no dia seguinte toca em Nova Iorque,           há quem pergunte entre écrã e luzes se ao ganhar o mundo perdemos                      o lugar onde nos sentávamos somos todos vizinhos,                 somos todos estranhos,      ligados por cabos separados por muros, o planeta é uma casa de portas abertas      e nem todos entram pelo mesmo preço e assim seguimos, te...

globalização

a globalização                      fez do mundo uma só matéria o mundo             cabe num fósforo acende-se a chama não conhece                    fronteiras basta     um único fósforo      para incendiá-lo inteiro