Zé Ninguém
Zé Ninguém chega sempre à mesa como quem chega ao centro do mundo, puxa a cadeira, mede os rostos, escolhe o ouvido mais disponível. Fala. Não é preciso muito: um nome, um defeito, uma estória sem dono que oferece em troca como moeda pequena. Fala dos outros para que o silêncio não fale dele. (O homem que se levantou há pouco ainda deixou o calor no assento, e já é assunto, já perdeu a sombra, já foi transformado em palavra na boca de quem ficou). Zé Ninguém mastiga devagar as vidas alheias. De vez em quando interrompe a frase e olha em redor. Não olha para ver. Olha para ser visto. Há sempre alguém a uma mesa próxima, um ouvido distraído, um copo que tarda em beber, uma cabeça que...