Zé Ninguém

Zé Ninguém chega sempre à mesa
como quem chega ao centro do mundo,
puxa a cadeira,
                               mede os rostos,
escolhe o ouvido mais disponível.

Fala.

Não é preciso muito:
um nome,
                     um defeito,
 uma estória sem dono
  que oferece em troca
como moeda pequena.

Fala dos outros
para que o silêncio não fale dele.

(O homem que se levantou há pouco
ainda deixou o calor no assento,
e já é assunto,
                  já perdeu a sombra,
já foi transformado em palavra
na boca de quem ficou).

Zé Ninguém mastiga devagar
as vidas alheias.

De vez em quando
interrompe a frase
     e olha em redor.

  Não olha para ver.
Olha para ser visto.

Há sempre alguém
a uma mesa próxima,
um ouvido distraído,
um copo que tarda em beber,
uma cabeça que se vira
por acaso.

Então aumenta ligeiramente a voz.

Só o suficiente.

 Quer que a sua presença atravesse a sala
 como uma colher pesada ao cair no chão.

  Quer deixar pairar no ar
a prova de que ali esteve.

(Não basta estar sentado.
Não basta respirar entre os outros.
Não basta ter um nome
que poucos pronunciam).

É preciso que reparem.

Quando enfim se levanta,
procura no rosto dos outros
a confirmação impossível

de que, por algum instante,
foi alguém.

E isso, para Zé Ninguém,
já é quase uma carreira.

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