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A mostrar mensagens de setembro 20, 2026

univers revers 2.0

A artroplastia reversa tem algo profundamente simbólico. Quando a mecânica antiga falha, a re-invenção do corpo cria uma nova fórmula.  Há nisso uma espécie de dignidade silenciosa:  prótese, ossos, inversão, re-aprendizagem do gesto: uma revolução anatómica. Quase uma outra vida. No ombro, a prótese implantada trocou       o lugar da antiga fórmula. O corpo, confuso,       aprendeu outra geometria. Agora o braço sobe até ao céu não pela memória,   mas por um pacto metálico. Dentro do osso, um pequeno planeta inverso gira sem infância. E mesmo assim, ergue o pão,  abre a janela,   segura a chuva.

univers revers

Para quem aceitou que o corpo fosse reescrito, que confiou o gesto à ciência e a dor ao tempo. Que este poema seja um curativo invisível: memória do que foi atravessado, celebração do movimento que regressa, e sinal de que, mesmo quando o mundo se inverte, há sempre um braço possível para acenar ao futuro. No lugar do corpo, onde o gesto             aprende a cair, a levantar--se do  chão, surge um silêncio branco            univers revers - nome cirúrgico de constelação, um mapa virado             do avesso - a mão a tocar o céu        A lâmina não fere: escuta. Afasta    a dor como quem corre a cortina: luz fria, precisa, quase imaterial Cada osso é um planeta antigo,        cansado de rodar fora do eixo     O cirurgião reaprende a gravidade,  inverte o mundo, e das mãos certas   desse relojoeiro o ponteiro r...

Refrão

Para Hilda Hilst Peça curta para vozes em alerta (com refrão) CORO (à frente do palco, luz crua): Homens do nosso tempo, escutai sem almofadas. O palco é nu. A verdade assim o diz. NARRADOR (lendo um relatório, interrompe): Chamais progresso ao ruído das máquinas. Mas a pergunta escapa, fica presa entre os vossos de dentes . ACTOR 1 (operário, mãos sujas de óleo): Trabalhei todo o dia para viver outro dia. Chamaram-lhe eficiência. Chamaram-lhe o percurso dos dias. E a palavra justiça rangia entre os vossos de dentes . ACTOR 2 (funcionário, fato cinzento): Assinei papéis que não li. Li títulos de imprensa em que não pensei. Pensei pouco, porque pensar atrasa a hora. O pensamento travava entre os vossos de dentes . CORO (em passo marcial, depois parado): Não cantamos para distrair. Cantamos para mostrar o fio solto. Cantamos porque o silêncio é um luxo caro, sempre pago - entre os vossos de dentes . ACTRIZ (personagem indefinida): Não falo de amor...

correspondências

Entre o real e o oculto,                 há uma porta sem nome - cada verso, uma chave,        cada símbolo, uma casa,         ecos de um mundo que    se afasta mal se aproxima, véu que se abre                               para mostrar o assombramento de outro véu.               E, assim, se escreve como se escrever fosse abrir portas - como quem pudesse atravessá-las.