Refrão

Para Hilda Hilst

Peça curta para vozes em alerta

(com refrão)


CORO (à frente do palco, luz crua):

Homens do nosso tempo, escutai sem almofadas.
O palco é nu. A verdade assim o diz.



NARRADOR (lendo um relatório, interrompe):

Chamais progresso ao ruído das máquinas.
Mas a pergunta escapa, fica presa
entre os vossos de dentes.



ACTOR 1 (operário, mãos sujas de óleo):

Trabalhei todo o dia para viver outro dia.
Chamaram-lhe eficiência.
Chamaram-lhe o percurso dos dias.
E a palavra justiça rangia entre os vossos de dentes.



ACTOR 2 (funcionário, fato cinzento):

Assinei papéis que não li.
Li títulos de imprensa em que não pensei.
Pensei pouco, porque pensar atrasa a hora.
O pensamento era um luxo entre os vossos de dentes.



CORO (em passo marcial, depois parado):

Não cantamos para distrair.
Cantamos para mostrar o fio solto.
Cantamos porque o silêncio
é um valor caro, sempre pago -
entre os vossos de dentes.



ACTRIZ (personagem indefinida):

Não falo de amor como promessa.
Falo de amor como prática:
olhar o outro sem desviar o rosto.
Mas os olhos cegam entre os vossos de dentes.



NARRADOR (visando cada espectador):

Dizeis que a poesia para nada serve.
Serve para pouco, nada ou muito.
É como um letreiro luminoso.
Cada letra pisca entre os vossos de dentes.



CORO (sussurrando, depois alto):

Entre relatórios e sirenes, votos, vitrines,

latrinas, há sempre a frase que mastigais 
sem engasgar entre os vossos de dentes.


ACTOR 1 (para o público):

Ainda respirais. Enquanto respirais,
respondei: a realidade será uma metáfora?
É um osso duro entre os vossos de dentes.



CORO (luz sobe, sem música):

Não pedimos pureza.
Pedimos atenção.
Tudo o resto a história ensina
um método assaz severo,
bem rimado, sempre a solo,
e sempre - sempre -
entre os vossos de dentes. 

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