o abismo

Não procures no livro
a receita para o domingo,
nem a frase que promete
um homem novo
na última página.

Desconfia do autor
que conhece o caminho
e o imprime em papel branco,
com passos numerados
para sair de si mesmo.

A felicidade,
quando vem com instruções,
parece uma mercadoria
dentro da embalagem.

A filosofia não te salva.

Abre a janela que mostra
o vizinho que fuma,
a criança que cresce -
o equívoco do mundo.

Mostra a cidade
mastigando os seus mortos,
correndo atrás do salário,
carregando o peso invisível 
das horas,

tão ocupados em melhorar,
que não sabem
para quê.

Não há dez passos.

Não há sete hábitos.

Não há uma manhã perfeita
à espera do seu espectador.

Há uma cadeira vazia,
um corpo que envelhece
e essa coisa obscura,
quase doméstica,
que se senta à mesa.

Aí começa o pensamento.

Quando perdemos
a vontade de fingir
que a questão é simples.

A filosofia não deve afirmar:
Eis como viver.

Deve apontar para o chão
e dizer: 
olha -

É aqui que estás.

Nesse pequeno animal
  a que chamas destino,
ao medo,

                  à liberdade                                

                                  à indiferença.

Olha mais fundo.

Não para ter esperança,
mas para descobrir
de que matéria é feita
a tua esperança.

Talvez pensar seja isto:
acender a luz
no quarto onde 
dormimos.

E depois permanecer.

Sem promessa.

Sem manual de vida.

Diante da merda profunda
que somos,
                   fizémos,
                                   herdámos,

até que o pensamento,
 ao menos nos impeça

de mentir sobre o abismo. 

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