os impostores

eu sou um impostor

tu és um impostor

e entre o eu
e o tu
há uma pequena palavra

nós

que finge ser uma casa

(entramos nela
sem tirar o chapéu
e fingimos que moramos)

eu digo
eu

como quem bate
à porta de alguém

e ninguém responde

tu dizes
tu

e o espelho
fica um pouco mais longe

talvez seja por isso
que nos toleramos

porque a minha mentira
reconhece a tua
pelo modo como tropeça

porque eu vejo
no teu rosto
a mesma ausência
que escondo no meu

e sorrimos

não de felicidade

mas porque é terrível
ser descoberto
sozinho

assim

somos dois
pequenos impostores
a segurar o céu
com palavras

eu sou um impostor

tu és um impostor

nós somos

(oh, essa palavra enorme)

impostores

e talvez o amor
seja apenas isto:

não perguntar
quem és

quando já sabemos
que nenhum de nós
é completamente
alguém

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