os amantes

É na penumbra do quarto 

que a noite desafia o seu segredo.

Longe da cidade e do rumor das vozes,

os corpos acendem-se,

dois arquipélagos de febre,

feitos de sal, silêncio e vertigem.

Vê como as mãos inventam 

a arquitectura do escuro,

a pele da cobra vibra 

antes de ser tocada.

Há uma urgência subterrânea 

em devorar as horas,

enquanto as ruas morrem 

na humidade dos lábios.

Amar é este ofício terrestre 

de esculpir a luz na carne,

âncora vagarosa de barcos nocturnos

junto à praia breve da boca.

Tu, que conheces a gravidade exacta 

da respiração do outro,

sabes que nada permanece senão 

o rasto de suor sobre os lençóis,

a memória densa da água, cinzas e desejo.

Deixa-te ir ir no vórtice da madrugada,

na mesma sombra que te oculta o dia.

Que a noite te seja um manto de sal e vertigem,

e ao amanhecer, quando a primeira luz 

rasgar o quarto, respira o peso exacto,

o beijo que devora os lábios.


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