O Aplauso
Primeiro vêm as bandeiras,
os rostos ampliados nos ecrãs,
as
mãos de palmas erguidas
como se a esperança pudesse
ser
medida em decibéis.
Depois vêm os discursos.
Prometem estradas,
ordem,
futuro,
um destino cuidadosamente
untado para caber no teatro.
E a multidão responde.
Aplaudem.
Aplaudem até as palavras
Não tem escolta.
Não tem microfone.
Não inaugura
estátuas.
Tem uma janela
e a cidade do outro lado.
Vê um homem que regressa tarde,
uma mulher que conta as
moedas,
uma criança que desenha uma casa
sem saber que já
nasceu hipotecada.
Vê os velhos nos jardins
sentados a dormir em bancos
como
páginas esquecidas.
E escreve.
Escreve porque há coisas
que um discurso não pode esconder:
a fome dentro do silêncio,
o medo dentro da ordem,
a
solidão dentro da multidão,
a morte nua e silenciosa
nas palavras do progresso.
Mas ninguém o aplaude.
Os políticos sorriem para as câmaras.
Os poetas escutam os
mortos.
Os primeiros querem
ser lembrados pela História.
Os segundos sabem que
a História esconde memórias.
Uma civilização não morre
quando caem as suas bandeiras.
Morre mais devagar.
Quando já não reconhece
a própria vergonha.
Quando troca a pergunta
pela palavra da mentira.
Quando chama liberdade
àquilo que apenas repete.
Quando confunde poder
com o simples ruído da voz.
E as bibliotecas continuam abertas,
os livros continuam nas prateleiras,
mas ninguém os procura.
E talvez seja esse
o verdadeiro silêncio dos impérios:
não o momento em que tudo desaba,
mas esse instante quase invisível
em que uma multidão
clamorosa
se ergue para saudar um discurso
enquanto,
a poucos metros dali,
um poeta fecha o caderno.