as casas
como sabeis que a terra não é o inferno
(de outro planeta)
talvez
já estejamos no fundo
sem o saber
e as chamas que
esperávamos
sejam esta
luz
mansa
de estação indefinida
talvez os condenados
sejamos
nós
&
ninguém nos disse
que o castigo pode ter
o rosto
o ruído
dos carros
ao amanhecer
o amor que se gasta
como
uma
vela
numa casa
vazia
se isto é o
inferno
então
o inferno
é
belo
tem
árvores
rios
crianças a rir
mãos que se
procuram
& isso é o mais cruel -
que o tormento venha
vestido de ternura
a eternidade se
disfarce
de rotina
(outros
planetas
olham-nos do alto
& talvez sintam
compaixão
ou inveja
sem saber ao certo
o que
somos)
almas em dor
ou em festa
anjos caídos
que
cantam
ou simplesmente
gente
que se esqueceu de
indagar a razão
&
eu
(que também não sei)
levanto os olhos
para o céu nocturno
& faço a mesma pergunta
em voz baixa
sem
esperar resposta
porque talvez
já a saiba:
continuar
a viver
entre a
dúvida
&
o espanto
como quem habita mistérios