as casas

Para Aldous Huxley



como sabeis que a terra não é o inferno

(de outro planeta)

talvez já estejamos no fundo

sem o saber
e as chamas que esperávamos

sejam esta
luz
                  mansa
de estação indefinida

talvez os condenados
sejamos

              nós
& ninguém nos disse

que o castigo pode ter

o rosto

      do hábito -
o pão de cada dia

         o ruído
dos carros 
ao amanhecer
o amor que se gasta 
como uma
                 vela
       numa casa
vazia

se isto é o inferno
então
o inferno
é
                    belo

tem árvores
                    rios
crianças a rir
mãos que se procuram

a solução 
         na penumbra

& isso é  o mais cruel -

que o tormento venha

vestido de ternura
a eternidade se disfarce
de rotina

(outros planetas

olham-nos do alto
& talvez sintam 
compaixão

                   ou inveja
sem saber ao certo
o que somos)

almas em dor
          ou em festa
  anjos caídos que 

cantam
ou simplesmente
gente

que se esqueceu de 

indagar a razão

da sua 
          presença


& eu

(que também não sei)

levanto os olhos

   para o céu nocturno

& faço a mesma pergunta
em voz baixa
sem esperar resposta
porque talvez

já a saiba:

continuar
a viver
entre a dúvida
&
o espanto

como quem habita mistérios

e por hábito

        lhe chama casas

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