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O Aplauso

Uma civilização começa a morrer quando aprende a aplaudir antes de aprender a escutar. Primeiro vêm as bandeiras, os rostos ampliados nos ecrãs, as mãos de palmas erguidas como se a esperança pudesse ser medida em decibéis. Depois vêm os discursos. Prometem estradas, ordem,             futuro, um destino cuidadosamente  untado para caber no teatro. E a multidão responde. Aplaudem. Aplaudem até as palavras perderem o significado e sobrar apenas o silêncio, o eco e a sombra das mãos. Enquanto isso, num quarto mínimo, um poeta escreve. Não tem escolta. Não tem microfone. Não inaugura estátuas. Tem uma janela e a cidade do outro lado. Vê um homem que regressa tarde, uma mulher que conta as moedas, uma criança que desenha uma casa sem saber que já nasceu hipotecada. Vê os velhos nos jardins sentados a dormir em bancos como páginas esquecidas. E escreve. Escreve porque há coisas que um discurso não pode esconder: a fome dentro do...

tradwife

Uma mulher que passa o dia todo a lavar roupa e a cozinhar dentro de casa não quer ir ao cinema ver um filme sobre uma mulher que passa o dia todo a lavar roupa e a cozinhar dentro de casa. Alfredo Hitchcock a mulher sabe que                             o detergente     (como o amor) teima em fazer      espuma               e que a batata pode cozer           mais devagar                 do que a saudade porque                  a vida (sempre  a vida) é mais            estranha                    do que a arte e a água               da loiça mais              cinema tográf...

O Visitante

Um traço. Depois outro.  Entre eles,                       o intervalo onde tudo começa.  No fundo da noite,  uma perfil             sem nome  resolve-se dentro de mim.  Não fala. Não pede.  Move apenas ar.  O círculo incompleto  acende-se no escuro como se aguardasse  um gesto inpensável. De sua margem ergue      um sopro - sem luz ou sombra,  a vibração                não se deixa   ver. O  silêncio faz o espaço,  a própria ausência  sem sinal.     Quando desperto nada levo comigo  além de um                  vestígio:  esse ponto imóvel, o quarto a respirar.

A Máquina

deram-nos  o pensar para sermos  livres agora  pensa outro por nós e finalmente  somos livres

inocências

I realized either I was crazy or the world was crazy; and I picked on the world. And of course I was right. Jack Kerouac Houve um dia em que me sentei diante do mundo como diante de um espelho. Perguntei-me: sou louco por desconfiar de homens que sorriem enquanto engordam os parafusos da máquina? sou louco por achar estranho que tanta gente caminhe  sem saber como e onde e ainda assim se orgulhe de exibir no pulso o cronómetro de corrida? Por momentos quase aceitei a sentença. Talvez fosse eu. Talvez houvesse qualquer coisa mal desenhada na arquitectura secreta da minha cabeça, uma janela aberta para o lado errado, um rádio sintonizado numa estação que ninguém escutava. Então olhei melhor. Vi homens a fabricar guerras em salas de limpeza. Vi crianças aprenderem o preço das coisas antes de aprenderem o nome das árvores. Vi o medo vestido de lei, a amizade vendida em prestações, a liberdade substituída na rua por cartazes com letras rachadas. Vi as ge...

auto-ajuda

Não ofereças a voz ao silêncio. Há quem queira reduzir-te ao eco das certezas,   vestir-te com nomes que não escolheste. Mas não és a legenda que tatuam na pele. És a palavra ainda a crescer - caminho que a tua medida traça. Não aceites o lugar de vítima –  há um território à espera de descoberta. Haverá mãos apontadas,                                   juízos apressados, olhares que tentam cegar o horizonte. Deixa-os passar. Nenhum deles conhece a força secreta que te anima. Ergue-te. Olha-te de frente. Desenha a cara na página em branco.  A vida não acasala com entradas de dicionário.

Alma

Para Emily Dickinson nós - que temos almas - morremos mais vezes -            do que o corpo pode  imaginar             quando o silêncio                   aprende a amar         o alfabeto do espelho    nós - que temos almas - vivemos como se   a natureza nos fizesse viver morrendo morrer vivendo       Não tão vitalmente - mas d´primordial arte  como um interruptor            da consciência essencialmente                                   verdadeiro

haicais intemporais

I Lobo de aço
 planta a voz no campo
 o trigo geme Dragão de fogo devora rios e pontes
 momentos e dor Noite de ferro
 Muda a luz em trevas morre a canção II Brisa no vale
 lava rios de ira canta a manhã  Lago sereno
  pomba branca em céus desperta o sol  Após a noite
 orvalho beija o chão renasce a paz