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ser escrita

Não sejas                  escritor.  Sê escrita -  o gesto puro,                       sem título,                                          sem retrato, sem nome na badana do livro Deixa o nome cair     como cai a folha  e fica                  o gesto:  a mão que traça                           o corpo inclinado      sobre o vazio da página Não é o ofício                          que te salva,  é o instante -                        ...

o abismo

Não procures no livro a receita para o domingo, nem a frase que promete um homem novo na última página. Desconfia do autor que conhece o caminho e o imprime em papel branco, com passos numerados para sair de si mesmo. A felicidade, quando vem com instruções, parece uma mercadoria dentro da embalagem. A filosofia não te salva. Abre a janela que mostra o vizinho que fuma, a criança que cresce - o equívoco do mundo. Mostra a cidade mastigando os seus mortos, correndo atrás do salário, carregando  o peso invisível  das horas, tão ocupados em melhorar, que não sabem para quê. Não há dez passos. Não há sete hábitos. Não há uma manhã perfeita à espera do seu espectador. Há uma cadeira vazia, um corpo que envelhece e essa coisa obscura, quase doméstica, que se senta à mesa. Aí começa o pensamento. Quando perdemos a vontade de fingir que a questão é simples. A filosofia não deve afirmar: Eis como viver. Deve apontar para o chão e dizer:  olha - É aqui que estás. Nesse pequeno...

os impostores

eu sou um impostor tu és um impostor e entre o eu e o tu há uma pequena palavra nós que finge ser uma casa (entramos nela sem tirar o chapéu como fosse nossa morada) eu digo eu como quem bate à porta de alguém e ninguém responde tu dizes tu e o espelho fica um pouco mais longe talvez seja por isso que nos toleramos porque a minha mentira reconhece a tua pelo modo como tropeça porque eu vejo no teu rosto a mesma ausência que escondo no meu e sorrimos não de felicidade mas porque é terrível ser descoberto sozinho assim somos dois pequenos impostores a segurar o céu com palavras eu sou um impostor tu és um impostor nós somos (oh, essa palavra enorme) impostores e talvez o amor seja apenas isto: não perguntar quem és quando já sabemos que nenhum de nós é completamente alguém

os amantes

É na penumbra do quarto  que a noite desafia o seu segredo. Longe da cidade e do rumor das vozes, os corpos acendem-se, dois arquipélagos de febre, feitos de sal, silêncio e vertigem. Vê como as mãos inventam  a arquitectura do escuro, a pele da cobra vibra  antes de ser tocada. Há uma urgência subterrânea  em devorar as horas, enquanto as ruas morrem  na humidade dos lábios. Amar é este ofício terrestre  de esculpir a luz na carne, âncora vagarosa de barcos nocturnos junto à praia breve da boca. Tu, que conheces a gravidade exacta  da respiração do outro, sabes que nada permanece senão  o rasto de suor sobre os lençóis, a memória densa da água, cinzas e desejo. Deixa-te ir ir no vórtice da madrugada, na mesma sombra que te oculta o dia. Que a noite te seja um manto de sal e vertigem, e ao amanhecer, quando a primeira luz  rasgar o quarto,  respira o peso exacto, o beijo que devora os lábios.

sanidade

  Sanity is a cozy lie . Susan Sontag sanidade - um cobertor sobre o abismo durmo o abismo não

Verme

     Fizeste-te pequeno  para caber no medo. Agora não estranhes o pé que te encontra. O chão não conhece outra linguagem. 

a porta

quando abro                      um livro abro         uma                  nova porta (ninguém vê)      a página              não é página    é dobradiça o silêncio    que se abre   e dentro  há uma rua   que nunca existiu uma janela     que desconheço & eu  entrando em mim   pela primeira vez 

confissão

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade. Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares, Vol. I, ed. 1982. Compreender é uma forma de possuir. E não quero pertencer nem sequer à inteligência de alguém. Ser compreendido é prostituir-se . É pôr a alma sobre a mesa e esperar que alguém diga: Ah! Conheço isto. (Não conhece). Ninguém conhece ninguém. Nem eu conheço o homem que sou quando estou sozinho. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou . (Há nisso uma pureza). Que me julguem triste quando sou apenas cansado. Que me julguem sábio quando não passo de vazio. Que me julguem indiferente enquanto estou a sofrer. (Que errem). O erro dos outros é às vezes a única liberdade que nos deixam. Não quero a compreensão humana. Quero a sua decência. Que me ignorem naturalmente, sem ódio, sem curiosidade, sem aquela ...