confissão

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares, Vol. I, ed. 1982.





Compreender é uma forma de possuir.
E não quero pertencer
nem sequer à inteligência de alguém.

Ser compreendido é prostituir-se.

É pôr a alma sobre a mesa
e esperar que alguém diga:
Ah! Conheço isto.

(Não conhece).

Ninguém conhece ninguém.
Nem eu conheço o homem
que sou quando estou sozinho.

Prefiro ser tomado a sério
como o que não sou.

(Há nisso uma pureza).

Que me julguem triste
quando sou apenas cansado.
Que me julguem sábio
quando não passo de vazio.
Que me julguem indiferente
enquanto estou a sofrer.

(Que errem).

O erro dos outros
é às vezes a única liberdade
que nos deixam.

Não quero a compreensão humana.
Quero a sua decência.

Que me ignorem naturalmente,
sem ódio,
sem curiosidade,
sem aquela caridade terrível
de quem pretende salvar-nos
de sermos nós próprios.

(Deixem-me ser).

Mesmo que seja ninguém.
Sobretudo que seja ninguém.

Porque há uma intimidade maior
em não sermos reconhecidos
do que em sermos descobertos.

E talvez seja apenas isto:
um homem que passa
e que ninguém entende,

um pensamento ainda por nascer,

uma janela acesa,
um quarto onde não dorme ninguém.

Assim, sim.

Tomem-me a sério
como ao desconhecido.

E não me compreendam.

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