confissão
Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.
Compreender
é uma forma de possuir.
E não quero pertencer
nem sequer
à inteligência de alguém.
Ser compreendido é prostituir-se.
É
pôr a alma sobre a mesa
e esperar que alguém diga:
Ah! Conheço
isto.
(Não conhece).
Ninguém
conhece ninguém.
Nem eu conheço o homem
que sou quando
estou sozinho.
Prefiro
ser tomado a sério
como o que não
sou.
(Há nisso uma pureza).
Que
me julguem triste
quando sou apenas cansado.
Que me julguem
sábio
quando não passo de vazio.
Que me julguem
indiferente
enquanto estou a sofrer.
(Que errem).
O
erro dos outros
é às vezes a única liberdade
que nos
deixam.
Não
quero a compreensão humana.
Quero a sua decência.
Que
me ignorem naturalmente,
sem ódio,
sem curiosidade,
sem
aquela caridade terrível
de quem pretende salvar-nos
de sermos nós próprios.
(Deixem-me ser).
Porque
há uma intimidade maior
em não sermos reconhecidos
do que
em sermos descobertos.
E
talvez seja apenas isto:
um homem que passa
e que ninguém
entende,
um pensamento ainda por nascer,
uma
janela acesa,
um quarto onde não dorme ninguém.
Assim, sim.
Tomem-me
a sério
como ao desconhecido.
E não me compreendam.