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A Solução da Noite

Aos amigos que esperam encontrar-se na solução da noite  como quem procura moedas debaixo da língua eléctrica da cidade,  digo: o sulfato dos dias é um cão a morder a própria sombra, e nós atiramos-lhe ossos chamados segunda-feira, chamados salário, chamados paciência com desconto. nas janelas vedadas respiram insectos burocráticos, orifícios por onde espreita o olho cansado dos impérios, e nos cruzamentos do tempo e do lugar,  um polícia  invisível multa-nos o coração por excesso de sonho. vi feitiços falidos a boiar no Tejo de plástico, promessas pem MAIÚSCULAS a vender aspiradores metafísicos,  letras tortas,  colunas de um templo bêbado onde profetas  dormem com a boca cheia de recibos. digo-vos, ó amigos de todos os tempos, a solidão tem um megafone rachado o desejo toca saxofone nas costelas da noite, no salão de jogo a esperança perde os sapatos enquanto revólveres jogam à roleta russa. há sempre uma forma de dizer não vestida a rig...

devoção

Para Sylvia Plath lâmina doméstica  a arder por dentro. O pássaro precisa de aprender a voar como quem aprende a usar uma faca na cozinha demasiado branca da manhã. Tudo brilha com dentes: o copo, o relógio, a boca da mãe. Nasceu com um coração de relógio partido, tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas. Dizem-lhe: tenta outra vez, o céu é um prato limpo. Mas o céu tem nódoas que não saem. Treina no quintal das coisas úteis: o balde, a corda, a camisa a secar como um fantasma dócil. Cada impulso é uma carta sem selo endereçada a um deus com auscultadores. O pássaro precisa de aprender a voar e o mundo oferece manuais de boas maneiras: não grites, não sangres, sorri com a boca fechada como as bonecas que sabem morrer. Debaixo das penas mora uma casa em chamas. As paredes perguntam pelo jantar, o espelho penteia-lhe o medo com dedos de enfermeira cansada. Há sempre alguém a medir-lhe a sombra. Então cresce um centímetro - o bastante para ouvir os si...

idiotamente

Esse jovem, já me informei,  é um caso muito difícil - disse a voz com hálito de café queimado por detrás do biombo. Um biombo: há sempre um biombo quando a cobardia decide  tirar uma licenciatura. Fiquei a interrogar-me sobre a sábia natureza de quem prevê futuros como quem aposta em cavalos coxos sem abandonar a cadeira. Profetas de secretária xadrezistas de peças  invisíveis, exercício  de pequenos poderes. Joguinhos, claro. De adultos mal resolvidos que nunca aprenderam  a perder n em a calar. Já não gasto saliva. A saliva é cara e os idiotas são uma raça abundante. Concluí:  um idiota. é mais um idiota a rodar alegremente no carrossel da idiotice, bilhete vitalício, música alta para não ouvir o protesto do  neurónio vazio. E lá vai ele, mais uma voltinha, mão no acelerador, olhos fechados, convencido de que manda no mundo porque controla a velocidade do vazio. Eu? Desci do carrossel. viajo sem bilhete, não falo atr...

os lusíadas

Lucros cantam melhor que as musas. no princípio não estavam as gentes. estava o lucro. e o lucro viu o nome os lusíadas e disse: isto é bom para vender. camões não escreveu um livro. escreveu um rótulo antes do tempo. para que um tipo de fato branco charuto apagado nos lábios e um sorriso de contabilista pegasse no título e o pendurasse numa fábrica de enchidos. o erro dele foi pensar em homens. o acerto deles foi pensar em números. as gentes dão problemas: faltam, reclamam, morrem. o lucro não. o lucro não falta, não morre, não pergunta de onde vem a carne. há uma linha de produção onde o verso entra inteiro e sai moído. não sobra metáfora, só enchido de porco. as musas? de avental manchado enquanto a carne passa pela máquina como a pátria passa pela história: triturada, temperada, embalada no vácuo. camões, querias cantar homens maiores que o medo deram-te homens menores que o lucro. o épico agora vem fatiado, vende-se ao quilo, tem selo d...

o pó nos sapatos

Para Hilda Hilst que as palavras te acompanhem mesmo quando fingem silêncio.    Homens do nosso tempo não vos escrevo para embalar o sono. Escrevo com a luz acesa e a porta aberta - quem entra, assuma o pó nos sapatos. Falais de progresso, a boca cheia de estatísticas. Mas no prato há sempre o mesmo osso e alguém fica a roer o silêncio. Aprendestes a dizer  ordem como quem diz  amanhã . Uma palavra limpa, lavada em gabinetes, enquanto na rua se aprende a gramática da fome. Não vos falo de amor como quem vende perfumes. Amor aqui é um método rude: olhar de frente para o outro sem desviar os olhos. Homens do nosso tempo , construireis máquinas sencientes, mas haveis pedido aos homens que desaprendessem de sentir. Chamastes eficiência à pressa de esmagar perguntas. A poesia, dizeis, não serve. Serve pouco, muito pouco. Como uma lâmpada mal pendurada numa sala de interrogatórios: não resolve o caso, mas impede a escuridão completa. Sei bem: preferis versos obedientes, do...

fuzilamentos

Os Fuzilamentos de Goya (com lanternas na garganta da noite) A colina respira pólvora. Madrid inclina-se para ouvir o estalo breve do mundo a quebrar. Há um sino que não toca, há um relógio sem números - o tempo aprende ajoelhado. Alinham-se como frases interrompidas, homens com nomes guardados no bolso, cartas que nunca foram abertas, um pão que ainda morna na memória. A noite passa-lhes a mão pelo ombro e diz:  esquece. Ao centro, a lanterna. Não é luz, é um interrogatório. Ilumina a camisa branca como quem sublinha um erro fatal  no manuscrito da história. Braços abertos:  não é prece, é espanto que encontrou lugar. O pelotão é um plural sem rosto. Botas conjugam o verbo obedecer. Os olhos não aprendem a ver; aprendem a apagar a visão. Há uma geometria fria que mede a distância  entre o coração  e chama a isso ordem. No chão, o sangue ensaia uma nova caligrafia, vermelho que tenta dizer nós antes de se tornar silêncio. Um cão di...

o novíssimo ano

o novíssimo ano bate fu-     rioso a toda  porta errada um estrangeiro no metro     esse que ninguém notou mas lá está ele: persiste     nas promessas vulgares as cruas mãos gretadas     reinvidicando: EXISTO! a vida encara-o  de viés como sopro de cigarro  sem nunca erguer                         a cabeça anos? a vida não usa dedos     para   fazer con- tas (usa cicatrizes) a a vida não saber que dia é                   hoje     sabe quando dói sa- be quando goza     &falta  dinheiro qua- do sobra                   silêncio    todos tentam medi-la          - calendários brancos tinta & giz de plástico a vida escapa à aritmética aprendeu cedo... a brincar  a fórmula ex...

my friend

Diz-me, my friend, quem não se rende à tua poesia? Digo-te, my friend : não se rende quem ainda escuta. a poesia não aceita rendições - apenas pactos secretos não se rende quem aprende a respirar dentro da palavra não se rende quem cai e transforma a queda em sílaba há quem entregue as armas há quem entregue o tempo mas a poesia fica fica como um animal ferido que recusa morrer fica como uma luz mínima num quarto sem janelas tentam domá-la com prémios com silêncios com a pressa do mundo ela ri - curta, irónica, imortal - não se rende porque não luta não se rende porque não obedece muda de forma entra pela margem infiltra-se na frase errada na vida mal vivida no coração cansado quando tudo pede desistir aí sussurra: fica e isso basta para que alguém - tu, talvez - continues não vencedor não salvo mas vivo atento enquanto houver um verso a resistir ninguém se rende