Mensagens

a caverna

Luz na parede, sombras.               E bastava. Depois um olhar  voltado para trás. A dor da luz.            O caminho. O mundo.    Então percebeu: a sombra    não era a árvore,      nem o pássaro,            nem o céu. Voltou para contar. Mas quem vive a sombra chama cegueira             à claridade.

o rebanho

queres uma vida fácil? fica com o rebanho acorda quando acordam        bebe quando bebem             ama o que amam         odeia o que odeiam acorda               bebe                         ama                                 odeia é simples ninguém (nunca)            te pergunta nada e quando finalmente te perderes               entre milhares de rostos               entre milhares de vozes             entre milhares de passos chama a isso paz repete - paz até que a palavra   soe como uma medalha    no peito de um homem que desistiu de si mesmo e então quando já não houver     ...

banalidades

Uma percentagem considerável das pessoas que encontramos na rua são pessoas vazias por dentro, ou seja, já estão mortas. Felizmente, não vemos nem sabemos isso. Se soubéssemos quantas pessoas estão realmente mortas e quantas dessas pessoas mortas governam as nossas vidas, enlouqueceríamos de horror . George Gurdjieff Rostos na manhã, vazios cruzam a luz,
 sombras respiram.  Um engano antigo; máscaras bebem a luz e as sombras sorriem. Mortos por dentro,
 governam cada mundo; mas ninguém os vê.

Zé Ninguém

Zé Ninguém chega sempre à mesa como quem chega ao centro do mundo, puxa a cadeira,                                mede os rostos, escolhe o ouvido mais disponível. Fala. Não é preciso muito: um nome,                      um defeito,  uma estória sem dono   que oferece em troca como moeda pequena. Fala dos outros para que o silêncio não fale dele. (O homem que se levantou há pouco ainda deixou o calor no assento, e já é assunto,                   já perdeu a sombra, já foi transformado em palavra na boca de quem ficou). Zé Ninguém mastiga devagar as vidas alheias. De vez em quando interrompe a frase      e olha em redor.   Não olha para ver. Olha para ser visto. Há sempre alguém a uma mesa próxima, um ouvido distraído, um copo que tarda em beber, uma cabeça que...

fahrenheit 451

You don't have to burn books to destroy a culture. Just get people to stop reading them. Ray Bradbury não queimes o livro deixa-o quieto entre livros intacto não é preciso fogo basta o silêncio de um livro fechado as páginas envelhecem sem testemunhas como uma jangada onde ninguém viaja e uma cultura vai esmoronado não em cinza mas em esquecimento

ser escrita

Não sejas                  escritor.  Sê escrita -  o gesto puro,                       sem título,                                          sem retrato, sem nome na badana do livro Deixa o nome cair     como cai a folha  e fica                  o gesto:  a mão que traça                           o corpo inclinado      sobre o vazio da página Não é o ofício                          que te salva,  é o instante -                        ...

o abismo

Não procures no livro a receita para o domingo, nem a frase que promete um homem novo na última página. Desconfia do autor que conhece o caminho e o imprime em papel branco, com passos numerados para sair de si mesmo. A felicidade, quando vem com instruções, parece uma mercadoria dentro da embalagem. A filosofia não te salva. Abre a janela que mostra o vizinho que fuma, a criança que cresce - o equívoco do mundo. Mostra a cidade mastigando os seus mortos, correndo atrás do salário, carregando  o peso invisível  das horas, tão ocupados em melhorar, que não sabem para quê. Não há dez passos. Não há sete hábitos. Não há uma manhã perfeita à espera do seu espectador. Há uma cadeira vazia, um corpo que envelhece e essa coisa obscura, quase doméstica, que se senta à mesa. Aí começa o pensamento. Quando perdemos a vontade de fingir que a questão é simples. A filosofia não deve afirmar: Eis como viver. Deve apontar para o chão e dizer:  olha - É aqui que estás. Nesse pequeno...

os impostores

eu sou um impostor tu és um impostor e entre o eu e o tu há uma pequena palavra nós que finge ser uma casa (entramos nela sem tirar o chapéu como fosse nossa morada) eu digo eu como quem bate à porta de alguém e ninguém responde tu dizes tu e o espelho fica um pouco mais longe talvez seja por isso que nos toleramos porque a minha mentira reconhece a tua pelo modo como tropeça porque eu vejo no teu rosto a mesma ausência que escondo no meu e sorrimos não de felicidade mas porque é terrível ser descoberto sozinho assim somos dois pequenos impostores a segurar o céu com palavras eu sou um impostor tu és um impostor nós somos (oh, essa palavra enorme) impostores e talvez o amor seja apenas isto: não perguntar quem és quando já sabemos que nenhum de nós é completamente alguém