a presença
Tudo o que não fomos
permanece.
Não
é sombra obediente:
uma silhueta imóvel
que olha dentro.
A cada novo
gesto,
o gesto recusado ergue-se,
a cada palavra dita,
a sílaba afogada no silêncio.
Vivemos
cercados
por essa multidão invisível:
caminhos abandonados,
amores mal suportados,
cidades que recusaram
o peso que eleva o passo.
E nenhum deles
nos julga.
Limitam-se
a contemplar
o estreito território do ser,
a minúscula estrela extinta
cuja luz encontra os olhos.
Talvez sejamos
o contrato
depois de breve transacção
entre o escolhido
e o perdido,
entre a porta varada
e as cem portas cerradas.
E tudo o que
não fomos
fixa em nós o olhar paciente,
uma certa ausência vigilante:
a forma exacta da presença.