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devagar

Pássaros nascidos  em gaiolas   olham o voo como doença. As asas batem  e aprendem o metal. O céu é febre.  O ar aberto, veneno. Ser livre  é o que mais temem.  E chamam lar ao que os mata devagar.

a velocidade absurda

A casa é uma fábrica de ecos. As paredes aprendem depressa os nossos tiques: a maneira como desistimos da manhã, o copo esquecido junto ao lava-loiça, a cadeira onde o corpo abandona lentamente a própria fome. Dentro de casa os pensamentos fermentam mal. Ganham bolor nas extremidades, falam com a voz cansada dos candeeiros, vestem o robe húmido do fim de tarde. Um pensamento doméstico raramente conhece o vento. Nunca atravessou uma avenida com chuva na cara, nunca perdeu o autocarro, nunca ouviu dois desconhecidos rir no fundo de um café. A casa protege e inventa labirintos pequenos. Há ideias que só existem porque o tecto é baixo e o silêncio engorda os móveis durante a noite. Por isso desconfio sempre  das conclusões repentinas entre o quarto e o corredor. Levo-as à rua. Se sobreviverem ao frio, aos cães de açaime, às montras de néon, à velocidade absurda das árvores num comboio, talvez sejam verdade.

ideias & casas

Never trust a thought that occurs to you indoors . Friedrich Nietzsche Nunca confies              num pensamento nascido entre paredes. A casa é especialista          em repetir sombras. Há ideias que só parecem verdade      porque a janela está fechada.

o sentido

If you look for a meaning, you'll miss everything that happens. Andrei Tarkovsky se procuras um sentido perdes o instante em que a folha hesita            antes de cair:                o riso que nenhum porquê questiona                  a mão que toca (como se fosse               um pássaro sem asas) o sentido   simplesmente acontece mas      deixa a pergunta cair (como o fruto  que recusa ser colhido) repara - nenhum abismo           nenhum absurdo apenas   (um pássaro que voa e não pergunta                              onde) apenas   (uma porta que abre sozinha (como a luz                          a tarde como         ...

a palavra

1. louvai o poema meus amores  louvai os poetas que recusam  o altar           nada possuem nem fogo                  nem musa entre os dedos:  pensam que                  escrevem nada lhes pertence -   animal sem                        dono  pulmão sem                       boca o poema desaprende a carne                 o sopro   a marca do dedo    o barro húmido 2.              a palavra não sabe de onde veio  sabe apenas onde chegou assim toda forma esquece                   o calor das mãos        que a fizeram       livre & inteira...

deus

And then all alone in space, in lightness, in cold. But the deep in the shape he has made to stand erect he takes a breath, as if reaching for the First, Primitive… Then God explodes from his hiding place. Rainer Maria Rilke  Inteiramente sozinho no espaço,   na leveza que não sustenta,   no frio que não perdoa,   respira.   O ar é lâmina e ausência,   um silvo antigo que entra e não sai.   Os pulmões, dois buracos abertos para o nada,   buscam o Primeiro, o Primitivo,   aquele sopro anterior ao nome,   anterior ao osso, anterior ao medo.   Há um tremor no escuro,   uma corda esticada entre o agora e o nunca.   O peito abre-se como uma porta enferrujada.   E então   irrompe.   Do esconderijo mais fundo,   do lugar onde a luz ainda não chegou,   sobe um grito sem som,   um animal de estrelas e fome,...

homens & cidades

Não basta tocar o disco uma só vez (Bertolt Brecht in Manual para Habitantes de Cidades  N⁰ 10 , Poemas , ed.1976. Tradução de Arnaldo Saraiva com a colaboração de Sylvie Deswarte) Idiotas!                              querem                dinheiro mais dinheiro & o brilho cansado contam moedas   como quem reza a um deus  cego           surdo                        mudo  gostosamente G-U-L-O-SO mas a terra  fecha duramente o punho e ninguém leva consigo                sequer um nome emprestado  (o invisível começa a acontecer... idiotas! sentem-se... estão sentados?) até que a luz irrompa como água a ferver numa pedra e diga: aqui roubei-me o tempo inteiro tem os            ...

clareza

He who is too kind is often thought to be a fool; but the fool is he who mistakes kindness for a lack of insight. To see the world’s flaws and still offer a hand is the highest form of clarity. Nikos Kazantzakis Quem vê   não se ilude   sabe   e, sabendo,   não recua        a clareza não endurece   depura   a bondade não é erro,   é decisão   o insensato                         confunde ver   com julgar   mas há quem veja   e permaneça - a clareza é uma mão  que se abre                     contra o vento

papel de alumínio

We live in a fantasy world, a world of illusion. The great task in life is to find reality. Iris Murdoch Vivemos num mundo de fantasia, um mundo de ilusão e a natural vocação da vida é ser noiva da realidade.  Mas onde será que se esconde? Não atrás dos véus que tecemos à pressa, nem no fundo de um mapa que míticos ancestrais rasuraram de olhos semi-cerrados, bocas finas e dentadura encenada. Acordamos em salas com portadas cerradas, nas paredes contamos estrelas de papel de alumínio, chamando verdade ao eco ensaiado no teatro do espaço.  A tarefa é mais dura e simples: desaprender o nome das coisas para fazê-las de novo falar.  A realidade é esse instante em que a mão hesita antes de tocar a água, e a água já não é metáfora.