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Os pequeninos

A guerra dos pequeninos não é travada com espadas, mas com joelhos dobrados. Combatem de cabeça baixa, e chamam virtude àquilo que nasceu do medo. “Somos poucos, somos fracos” - e fazem disso um altar. A guerra dos pequeninos é a vitória do ressentimento vestido a rigor de moral. Cada um vigia o outro, para impedir as alturas. Quem se levanta é acusado de soberba, quem dança é suspeito. Preferem a igualdade pois não suportam a diferença, preferem a força bruta pois não suportam a justiça, preferem a morte pois desaprenderam o que é amar estar vivo. Mas atenção que esses a quem sempre chamaram pequeninos são também  um campo de batalha. Dentro de cada pequenino há uma centelha divina que ainda não foi domesticada, um impulso que pergunta - e se eu fosse algo mais?  Toda guerra termina quando alguém ousa perder gosto de vencer. Quando alguém diz "basta" a tudo o que mente para ser o que não é, a ilusão  perdida, de que o mundo glorifica  os ajo...

946 Poesia

Entre Marte e Júpiter há uma sílaba de pedra a repetir o seu nome em silêncio orbital. Não cai. Não foge. Demora. Quarenta quilómetros de metáfora a girar devagar - tão devagar que o tempo precisa de se sentar para o ver passar. Descoberto por um homem que olhava o céu como quem procura rimas perdidas, o asteroide aceitou seu nome, sem protestar. A sua órbita é elíptica - como o pensamento humano - aproxima-se, afasta-se, regressa sem nunca ser igual. Inclina-se apenas um grau e qualquer coisa, porque até os asteroides sabem que o excesso estraga o verso. Roda em cento e oito horas, uma rotação lenta como o poema que não quer acabar antes de ser maior que um nome. Não tem voz, escreve com gravidade. Não tem mãos, segura o Sol à distância exacta do sentido. Enquanto a Terra se apressa, a poesia insiste: há beleza no intervalo, há arte na repetição, há futuro em quem demora. E assim segue, entre destroços e estrelas, lembrando - com humor mineral e p...

animal eléctrico

cada dia se cala um punho de luz a queimar dentro silêncio não é fim animal eléctrico  a respirar fundo sangue das coisas corpos escritos o centro do nervo a trabalhar dentro cada dia se cumpre lavaredas de horas um rosto exaltado  a língua em brasa  os sons nascem antes da boca os gestos ardem antes do sentido (o dia irrompe  em sombra - ambrósia  da  matéria viva) cada dia  dentro do poema

in limine

teu olhar habita (fundo) o universo espelho sem medida (respira) a curva invisível do número in- finito seta que dispara sem condição (como sem saber  porquê) o piano move-se entre sombras - lenta combustão do teu peito onde  o enxofre aprende  a ser   ar ( respira o som) respira  (o som  em ti)

ciborgue

após a operação às cataratas o médico disse: as lentes são próteses d'alma transparências forjadas pelo forno da máquina na carne - vejo agora tudo                                &além tudo  (objectos deixaram de ser objectos) a  coisa em si  sumiu do léxico              da escola                    caminho ainda por entre                                          esses sinais entre falhas do sistema onde todas as linguagens falam entre si - porquê a palavra sonora quando o corpo se funde com um chip? olho uma cadeira... penso em voar.                (cadeiras deixaram de ser cadeiras     ...

a distância mais curta

Anatomias A distância mais curta entre nós é uma ferida limpa. Um corte que não sangra, mas pulsa, como um animal preso no escuro. Falo contigo como quem tenta não acordar um morto ou provocar um espelho. A tua ausência ganhou densidade: senta-te ao meu lado, respira por mim, toca os meus ombros com dedos de ar. Escrevo como quem tenta manter a própria pele: letra por letra, riscando a página como se fosse chão. Cada palavra, um fósforo. O modo simples de ver no escuro. Mulher com fósforos Não sou santa, nem sombra. Sou a mulher que segura fósforos num quarto onde tudo arde devagar. Aprendi a esperar sem tempo. Aprendi a acender uma luz sem luz. Os homens olham e pensam: ela vai incendiar tudo, mas já o fiz. Queimei nomes, camas, as palavras sonoras de dor. E não sobrou dor. Apenas o gosto a fumo na língua, e essa voz que diz: escreve, antes que tudo volte a silenciar. E então escrevo com fósforos entre os dedos, a cabeça acesa, como quem sopra vida na própria cinza. Relicário Há coisa...

a luz depois

Para P. J. C. M. em memória de tudo o que muda. a luz regressou                          depois sem peso         quando  os olhos rasgaram  por  mãos que                     não conheci era um       mundo diverso dos nomes      que  usava rosto cadeira  rua          árvore  sombras em água & o fundo não se movia nada mais era coisa                              nada mais era    ideia só  vibração  som antes      do  som  algo que  respondia     não com palavras mas com         o corpo  matéria luz carne       tudo isso & ainda o espaço  que expande negro    ...

mundos paralelos

m.u.n.d.o.s. (paralelos // = a salvação) se_           f.a.r.t.o.s_ de (um)             P U F! (saltamos) 1⁰     2⁰         3⁰   (#dos olhos // #do medo // #do tempo que foge) p/ o u t r o         & o.ut.r.o             &&& (.. ) ∞→ :: ao n/gosto :: escolham → [porta] [realidade] [criação] o único            senão                     será o céu? (mas esse ri-se &diz: -  Nunca fui limite. ) F    Ô        L             E               G                  O                    ...

Homem-Megera

(luz baixa. cadeira no centro.  um  homem entra, senta-se devagar. respira. olha para o público. ) Sabem o que é ser bicho com cara de homem? Não? Pois eu sei. Chamam-me megera, mas só porque mordo antes de ser mordido. Porque não peço desculpa por existir. Ou porque existo de um modo que incomoda. Muito. (pausa. levanta-se, anda em círculos.) Fui aprendendo, sabem? Com os anos. Com os gritos. Com os silêncios. Aprendi que mostrar sentimento é convite ao tiro. Que chorar é abrir ferida numa sala cheia de predadores. Que amar… amar é um jogo com regra escondida. E perdi cedo. Muito cedo. (olha para o chão. depois ergue a cabeça. fala  com dureza .) Então vesti espinhos. Armei os olhos. Endureci as mãos. Fiz da voz um casaco grosso. Agora dizem: Tu és bruto . Tu és frio . Tu és o problema . Mas não estavam lá, pois não? Quando me ensinaram que um homem não treme. Um homem não quebra. Um homem engole. Um homem cala. Um homem manda. E ...